Não sei se ele
estava ciente com quem andava, mas conversava comigo normalmente; eu achava que
sim. Falava-me uma porção de coisas que eu pensava ser simples lembrança de seu
passado que eu gostava de ouvir. Não percebi que não estava bem. Era normal
conversar bastante. Não tinha muito mais idade que a minha, a diferença era
pouca, uns 20 anos. Apesar disso, éramos amigos e bons amigos. Eu tinha
trabalhado com ele, eu o ajudava no serviço. Muito aprendi, pois seus ensinamentos
eram imprescindíveis para meu crescimento. Mas de repente algo mudou, assim num
estalo de dedo. Encontramos amigos em comum, conversamos, só que desta vez ele
apenas respondia o que lhe era direcionado ou perguntado. Mas ao sairmos de perto
desses amigos, ele me perguntou, quem eram? Como? Quem eram? Velhos conhecidos
nossos, de longa data; não era possível que ela não saberia de quem se
tratava. Respondi, lhe expliquei, mas me
pareceu que embora concordasse, não conseguira se lembrar.
O deixei em sua
casa no mesmo dia, para nos encontramos na manhã seguinte, para continuarmos
nossos passeios. Eu estava de férias e ele tinha se aposentado. Eu tinha livre
acesso a casa dele e quando entrei, ele me olhou desconfiado, como se não estivesse
me reconhecendo e não estava mesmo. Perguntou-me quem eu era o que fazia ali,
que era para eu ir embora, pois não me conhecia. Calma seu João, sou Zé Luiz,
seu vizinho, vim te buscar para continuarmos caminhando, como fizemos ontem.
Mas, me respondeu- não sai de casa ontem, aliás, nem sei que casa é essa, não conheço
essa gente que esta aqui, quero ir embora para minha casa. Calma Seu João – é a
sua família, seus filhos, netos que vierem te visitar. Espantado, incrédulo me disse
não gosto dessa gente, estão me deixando preso aqui – Nunca casei, não tenho
filhos, nunca tive. Foi nesse instante que caiu a ficha, como se dizia – ele
apresentava sintomas de Alzheimer – não reconhecia mais ninguém. Como é triste
vermos uma pessoa que até “ontem” vendia saúde e hoje é dependente de tudo,
sequer lembra quem é e, pior, quem fora. Teremos trabalho pela frente, mais
ainda, teremos que ter paciência.
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